Palestra da Coordenadoria da Infância e da Juventude aborda trauma racial

Evento virtual.

 

A Coordenadoria da Infância e da Juventude (CIJ) do Tribunal de Justiça de São Paulo, em parceria com a Escola Judicial dos Servidores (EJUS), realizou, ontem (23), a palestra virtual “Do reconhecimento à ação: trauma racial e seus ecos no Judiciário”. Os debates focaram na maneira como eventos do cotidiano impactam, de modo traumático, na vivência de pessoas negras, o racismo sistêmico e possíveis soluções. A palestra foi mediada pela juíza Maria Lucinda da Costa e ministrada pela psicóloga e psicoterapeuta Ediane Ribeiro.

Para a expositora, “o trauma tem a ver com o tempo, com algo que aconteceu cedo demais, rápido demais ou por tempo prolongado demais na vida de uma pessoa”, não sendo possível assimilar bem aquela experiência. A relação do trauma com o racismo é significativa, já que ambos se referem à perda de segurança e proteção. “O racismo é também uma ameaça à sobrevivência do ‘eu autêntico’, do eu que a pessoa poderia ser se a sociedade fosse mais gentil”, destacou.

Ediane Ribeiro explicou, ainda, que o trauma está ligado à maneira como alguém assimila um evento, e não o evento em si. Nesse sentido, um organismo pode ser mais ou menos suscetível ao trauma. Se duas pessoas estão dentro de um carro que sofre um acidente, por exemplo, é possível que uma não consiga mais dirigir, e a outra sim. “Além disso, o que é transmitido biologicamente de uma geração para a outra são os comportamentos de sobrevivência aos traumas, não o evento traumático”, mencionou. “Se uma pessoa fica mais vigilante, isso muitas vezes não está relacionado com o que ela passou, mas com a genética transmitida. O cérebro pode não receber a informação de que o perigo passou. É um organismo mais vulnerável à traumatização”, disse. De acordo com ela, há pesquisas que mostram maior prevalência de doenças cardíacas e hipertensão em pessoas negras em comparação a outros grupos, relacionada ao estresse racial sofrido.

Na sequência, a psicóloga indicou que, em uma dimensão coletiva, o racismo sistêmico é consequência do processo histórico violento que experimentamos. “Existe uma forma da sociedade funcionar que envolve assimetrias de poder, disparidade de recursos, marginalização e estigmatização”, indicou. “A questão só se encerrará quando resolvermos essa assimetria. Também é preciso olhar para as vulnerabilidades, mas ter esperança na história individual de cada pessoa”, concluiu.

 

  Comunicação Social TJSP – RM (texto) / PS (reprodução e arte)

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